Convivendo com pouca água e sem esgoto

Nascido no Nordeste do Brasil, passei toda a minha infância na Região semi árida nordestina, onde não havia água encanada e sistema de coleta de esgotos. A água consumida diariamente era recolhida  no período de chuvas que no Nordeste ocorre no Inverno. Já naquela época, ou seja década de sessenta , todas as casas tinha um reservatório ou cisterna onde eram armazenadas toda a água dos telhados através de calhas metálicas ou de madeira. Era comum também naquele tempo, toda casa ter um poço artesiano, porém esta água não servia para o consumo, por conter sal ou seja era salobra. Na verdade toda a Região Nordeste do Brasil, já foi coberta pelo mar e em qualquer lugar que se faça uma perfuração certamente, esta água será salobra. Lembro que tomávamos banho com esta água e quando secávamos o corpo, ficávamos com a sensação de estar com a pele cheia de sal. A água de poço era muito utilizada para fazer a primeira lavagem nas roupas, lavar louças, regar plantas, lavar a casa e panos de chão. Sem água encanada ou água em abundância, aprendíamos desde cedo a usar o precioso líquido com racionalidade.

Como era viver em uma casa sem torneiras e chuveiros.

Higiene pessoal: Para tomar banho colocávamos água em uma bacia de alumínio ou gamela de madeira , sendo que este esse ritual ocorria uma vez por semana. A nossa higiene bucal, era feita com uma caneca de água e para lavar o rosto havia um lavabo de madeira com uma pequena bacia de alumínio. A água que bebíamos, ficava armazenada em um pote de barro ou moringa, o pote de barro geralmente ficava na sala no local mais fresco e sobre a boca do pote ficava um prato com dois ou três copos de vidros. As louças e panelas eram lavadas em bacias e a água suja era descartada no quintal. Os banheiros não tinham descargas e sempre que alguém precisava usá-los tinha que levar água. Sem sistema de coleta de esgotos, todo banheiro tinha uma fossa para armazenar os dejetos. Lembro que naquela época já havia comércio de água. Era comum vermos jumentos transportando água em reservatórios cilíndricos de zinco que chamávamos de “carote”, ou carroças puxadas por burros transportando tonéis de madeira, quem não tinha condições de pagar, só restava colocar a lata na cabeça e ir até um dos reservatórios públicos ou bombas, onde a prefeitura abastecia com carro pipa, a outra alternativa era buscar água nos açudes da região. Passado quase cinqüenta anos, a realidade daquela região hoje é outra. Hoje eles contam com água encanada em praticamente todas as casas. Cheguei aqui na Baixada santista no começo dos anos setenta, onde encontrei uma outra realidade, a cidade já tinha uma boa rede de água e esgotos, o serviço era controlado pela SBS – Saneamento básico da Baixada Santista. Naquele tempo a água continha muito cloro, quando enchíamos um copo de água, ficava parecendo leite, tínhamos que esperar o cloro descer para tomar. Para aliviar a carga de cloro, os registros de ruas eram abertos no período noturno, estes registros ou válvulas estão localizados em cada quarteirão. Diferente do Nordeste, aqui podíamos tomar banho diariamente, sem correr o risco de ficarmos sem água, a coisa só se complicava na temporada quando a população da cidade triplicava e então a qualidade da água caia e éramos obrigados a procurar as bicas da região, naquele tempo ainda existiam bicas com água de boa qualidade, como a bica do Marapé, no final da Rua Joaquim Távora, bica do Itororó, no sopé do Monte Serrat e bica do Bom Retiro, no sopé do morro dos ilhéus. O comércio de água mineral na cidade ganhou força quando estes recursos naturais ficaram poluídos e sem saída muitos foram obrigados a comprar água em garrafões ou instalar filtros em suas residências. O sistema de esgotos da cidade era meio que deficitário, muitas casas e prédios despejavam seus esgotos nos canais e na orla praticamente todos edifícios canalizavam seus esgotos para o mar, como resultado a cidade tinha um alto índice de pessoas infectadas com doença de pele. Em 1976 com a inauguração da estação de tratamento de esgotos do José Menino, todos os esgotos clandestinos da orla santista foram canalizados para a estação de tratamento. Demorou muitos anos para a Prefeitura acabar com as ligações clandestinas de esgotos nos canais. Sempre que chegava denúncia de esgoto clandestino, fiscais iam até o imóvel e jogavam um corante no vaso sanitário, para fazer o monitoramento.

José Carlos

Editor do Blog

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